domingo, 18 de junho de 2017

Essa tal liberdade

Mais fácil achar um brasileiro que votaria em Michel Temer ou Aécio Neves para síndico de seu prédio do que um blockbuster em 2D na minha cidade.

A quinta aventura de Jack Sparrow, a segunda dos Guardiões da Galáxia, a primeira solo da Mulher-Maravilha – em todas acabei me rendendo àqueles óculos que deixam qualquer um mais bonito se as luzes estiverem apagadas. Isso porque não havia um Cineplex ou Kinomark na vizinhança que não oferecesse apenas as versões em 3D dos respectivos filmes. Coincidência? Que nada. O 3D, cujo ingresso é bem mais caro, está deixando de ser opção para se tornar A ÚNICA opção.

– Como é mesmo aquela história bonita de que, no capitalismo, reina a liberdade e o consumidor é quem manda? – provoquei um velho amigo entre um like e outro. Não um velho amigo como os outros, capazes de enxergar um golpe quando estão diante de um: ele assina a Exame, defende as reformas e acredita na Miriam Leitão.

– Você é livre para não ir ao cinema. Te obrigam a assistir ao filme em 3D? Se não tem sessão em 2D, pode optar tranquilamente por não assistir ou assistir em 3D. A escolha é sua. A liberdade é plena dentro daquilo que existe. Lamento, mas o mercado não se ajusta ao gosto de poucos. Talvez sua vontade não consiga mudar nem um nem outro.

– Ahã. Do mesmo jeito que sou livre para comer abobrinha sem agrotóxico. “Mas voci podi escolhir entri não comir i comir apenis orgâniquis”, você dirá em meio a caninos cerrados. E eu direi que esses produtos são beeeeem mais caros, queridão – o que exclui a maioria das pessoas. O material da verdadeira liberdade não é um o-que-é definido pela injustiça do mundo, e sim um o-que-deveria-ser. Você viu O quarto de Jack, não viu? Espalhar por aí que “a liberdade é plena dentro daquilo que existe” é afirmar que o menino era “livre” dentro dos limites daquele cubículo.

Pasmem: a discussão continuou noite adentro sem que ninguém xingasse a mãe ou apelasse para insultos envolvendo coxinhas, mortadelas e demais partes da anatomia humana. #Épossível

Dela (da discussão), não restaram mágoas: só olheiras e a impressão de que todos somos um pouco Jacks, com nossas escolhas reduzidas pelo capitalismo, pelo mercado, pela crise – o nome que se queira dar a esta sombra que está aí, aqui, em todo lugar; que estava no metrô do dia seguinte, onde dois rapazes botavam trilha sonora na viagem até serem retirados do vagão por seguranças. De repente me lembrei dos músicos do Theatro Municipal carioca, que não recebem salários há meses: impedidos de tocar no palco, é provável que também o fossem no trem.

Liberdade?

A palavrinha que já perseguiu personalidades como Pessoa (o Fernando) e Pires (o Alexandre) me algemou de jeito. Mais tarde, dei com um grupo de seis ou sete homens deixando um restaurante. Hora do almoço e, presumi, voltavam para a senzala, digo, o trabalho. Certamente eram todos livres, independentes, donos do próprio nariz: com aqueles sapatos sociais entre o black e o off-black; com aquelas calças sociais entre o cinza e o plúmbeo; com aquelas camisas sociais entre o rosa-salmão e o salmão-rosa – dobradas precisamente na mesma altura dos braços.

Liberdade?!

Tio Adorno já ensinava que “o consumidor não é soberano, como a indústria cultural quer fazer crer; não é seu sujeito, mas seu objeto”. O Sistema não só alimenta a ilusão de que inexiste um Arquiteto à la Matrix, que determina desejos e sonhos de consumo; ele ainda recheia com os agrotóxicos da propaganda a abobrinha de que nosso caminho é tão somente fruto de decisões individuais. Longe disso. Qualquer querela sobre liberdade transborda e transcende o aceito ou não aceito, o quero ou não quero, o assisto ou não assisto em 3D.

Vai muito além de duas dimensões.

domingo, 11 de junho de 2017

Casamento dos sonhos

À procura de um minutinho de alienação (que não durou muito mais que esse minutinho, o leitor vai ver), esbarrei no tal Fábrica de casamentos, que até então só conhecia dos intermináveis comerciais do Discovery Home & Health. Foi um susto. Não com o programa em si – no qual profissionais da área fazem em sete dias o que todo casal minimamente sensato faz em pelo menos 365 –, mas com os noivos da vez, que desejavam uma festa com samba e pagode, comida canadense, Cadillac cor de rosa, passarela espelhada, bolo de quinze andares e... neve.

Que mixórdia também foram as primeiras palavras que vieram à minha cabeça.

Explicando os itens: a neve e a comida canadense eram referências a uma viagem pela terra natal de Celine Dion; o Cadillac cor de rosa, à lembrança de um carrinho que a noiva teve na infância; os quinze andares do bolo, aos anos de namoro; o samba e pagode eram gosto mesmo, então não se discute; já a passarela espelhada não tinha causa, motivo, razão ou circunstância plausível – a não ser o desejo de entrar para o Guinness na disputadíssima categoria das festas mais cafonas ever.

Para a minha surpresa, no entanto, o que prometia ser o Oscar dos casórios – só que sem a Meryl Streep para dar alguma dignidade – se mostrou incrivelmente harmonioso no fim (no começo e no meio também). Do cardápio ao buquê, passando pela trilha sonora, a decoração e o bolo arranha-céu, tudo refletia com tanta coerência e coesão a história dos noivos, que nem a passarela espelhada foi capaz de ofuscá-los.

Pensando bem, de equipes como a que organizou essa cerimônia é que o Brasil anda precisando. Um time de experts que consiga (ou pelo menos nos inspire a) reunir nossas diferenças, misturá-las num bufê e promover uma festança na qual todos se divirtam, e não somente os que têm lugar reservado perto da mesa de doces – e acreditam que “não dar certo na vida” é ser ambulante, gari ou o garçom que lhes serve os canapés.

Até quando vamos distribuir convites apenas para os cúmplices? Até quando vamos estimular desquites ancestrais e aprofundar ainda mais os abismos que há entre nós?

Até quando vamos apoiar planos econômicos que tiram direitos dos que têm menos e preservam privilégios dos que têm (muito) mais? até quando vamos fingir que a luta de classes é um conceito perdido num livro de História? até quando vamos admitir o extermínio diário de jovens negros? até quando vamos tolerar quem usa sua audiência para vomitar misoginia, racismo e homofobia disfarçados de humor e liberdade de expressão? até quando vamos reprovar uma escola aberta a temas como identidade de gênero e orientação sexual? até quando vamos defender que a violência seja o remédio para curar dependentes químicos? até quando vamos consentir que arbitrariedades sejam cometidas só porque atingem pessoas de quem não gostamos – ou que simplesmente não conhecemos? até quando vamos engolir uma narrativa que nos reduz aos vips cidadãos de bem versus bandidos, cracudos, preguiçosos, vagabundos, vândalos e afins?

Até o dia em que a separação de corpos e bens for irreversível; o divórcio, inevitável; e a reconciliação, uma lua de mel impossível?

Já passou da hora de os brasileiros enfim assumirmos um compromisso sério – e trocarmos alianças – com o país do futuro que tanto azaramos nos últimos cinco séculos.

domingo, 4 de junho de 2017

Orçamentos

Uma das lições mais valiosas que aprendi com meu pai, craque das contas e descontos, foi jamais guardar o que sobrasse do salário.

Calma, não o interpretem mal – que ele não me ensinou a viver cigarramente. A ideia era formiguinhamente o contrário: guardar sempre uma fração dos vencimentos – por menor que fosse – e passar o mês com o resto. Essa poupança compulsória serviria para emergências e sonhos. Nota de esclarecimento: emergências, às vezes, são sonhos que andam com pressa de sair do papel, como férias no Japão (com direito à Disney de lá), uma festinha anos-oitenta pra comemorar o níver de casamento ou aquela repaginada no apê. Tal definição de “emergências”, porém, só existe no meu dicionário. Nada a ver com o manual paterno de finanças, fique claro.

Um parêntese inadiável: (de repente, descobrimos que separar parte do que se ganha para emergências não é lição seguida apenas nos orçamentos domésticos mais prudentes. Grandes empresas brasileiras fazem o mesmo há décadas. Só que, no dicionário delas, “emergências” significam “milhões em propinas”. E depois seus donos ainda vêm dizer que os direitos dos empregados é que pesam no orçamento. Ah, tá).

Mas não é desse tipo de orçamento – ou daquele que inclui água, luz, telefone e sertralina – que eu quero falar. A matemática hoje é outra.

Quanto do seu dia você reserva para aquele livro que continua solteiro na estante? para aquela receita de ceviche que você viu no Masterchef? para aquelas fotos de mil novecentos e balão mágico que prometeu digitalizar? para aquele sol na varanda rico em vitamina D? para aquela mensagem de aniversário que vá além do parabéns-muita-saúde-tudo-de-bom? para aquele beijo que te deixa sem fôlego e com vontade de recuperá-lo só para perdê-lo de novo?  

Quanto da sua semana você reserva para o filme que estreou na última quinta? para a corridinha no calçadão ao som de “Eye of the tiger”? para as happy-hours com aqueles amigos que te fazem rir mais do que qualquer astro do stand-up (e nem te cobram um rim por isso)? para os textos do amigo comuna-petralha-esquerdopata-defensor-de-bandido que vão te ajudar a interpretar as entrelinhas dos jornalões?

Quanto dos seus anos você reserva para viajar até a cidadezinha onde nasceu Guimarães Rosa? para conhecer a vinícola onde há de tomar seu melhor porre? para se perder na floresta onde reina o maior cajueiro do mundo? para flanar o bairro onde mora Amélie? para sentar no banquinho onde a Mafalda tira foto com seus leitores? para jantar no castelo onde vive a Cinderela? para dançar no bar onde os Beatles tocaram juntos pela primeira vez? para saborear um pastel de nata no café onde Pessoa batia ponto e poesia?

A vida não pode ser o que sobra – mas o que de antemão cada um de nós guarda para jamais ficar em déficit consigo mesmo.

domingo, 28 de maio de 2017

“Ain! Você só fala de política!”

Como passar um dia inteiro discutindo se Taís Araújo deveria ou não ter aceitado a abóbora oferecida por Ana Maria Braga (a atriz detesta o fruto da aboboreira), enquanto ainda há tantos trabalhadores país afora – iludidos pela propaganda do “governo” e da mídia corporativa – defendendo reformas que só interessam a seus patrões? enquanto ainda há tantos assalariados ignorando o simples fato de que menos salário e benefícios para o empregado significa tão somente mais lucro para o empregador?

Como passar um dia inteiro discutindo se quem possui um cãozinho de estimação também tem o direito de comemorar o Dia das Mães, enquanto “cidadãos de bem” aplaudem o prefeito da maior cidade da América do Sul (que já invadiu terreno público e o anexou a propriedade sua) por desalojar de ruínas abandonadas dependentes químicos, fechar estabelecimentos comerciais e impedir que os donos retirem de lá seus pertences e produtos – ações truculentas e espetaculares que repetem antigas ações truculentas e espetaculares que só resultaram em novas cracolândias?

Como passar um dia inteiro discutindo se Fulaneide ou Beltranílson vão deixar a casa mais vigiada do Brasil (não estou falando do Alvorada), enquanto parte considerável da população vê numa intervenção militar a solução para a crise política que a nação atravessa, como se a História já não tivesse mostrado que recorrer a atalhos antidemocráticos – especialmente pavimentados pelas Forças Armadas – invariavelmente termina em repressão ao pensamento divergente, em censura à imprensa e às artes, em tortura (inclusive física) de pessoas, além de – xeu te contar um segredo – não acabar com a famigerada corrupção?

Como passar um dia inteiro discutindo se a falta foi dentro ou fora da área, enquanto a amiga dos tempos de colégio (particular) insiste que negros não deixam as favelas, não ocupam mais cargos de chefia ou não têm tantos papéis principais na tevê porque não se esforçam o suficiente? enquanto o colega dos tempos de curso de inglês (e excursão à Disney) não enxerga que o ponto de partida é “ligeiramente” mais atrás quando você vive num lugar abandonado pelo Estado e dominado por bandidos, quando você estuda em escolas nas quais falta até papel higiênico, quando você é seguido pelo segurança – só por causa da cor da pele – assim que entra nas Lojas Americanas?

Como passar um dia inteiro discutindo se o vestido é branco e dourado ou azul e preto, enquanto o vizinho desperdiça todo o seu choro e ranger de dentes com a vidraça estilhaçada de um banco – banco, aliás, que não só continua batendo recordes de lucro apesar da recessão econômica, como ainda vê perdoada uma dívida de bilhões com a Receita Federal – e, ao mesmo tempo, ignora os seres humanos que têm sua vida estilhaçada por um sistema econômico que prioriza as coisas e despreza os corpos?

Como passar um dia inteiro discutindo se o coala é mais fofo do que o panda, enquanto a justiça (com minúscula mesmo) condena quem rouba ovos de Páscoa e absolve quem lava e evade milhões? enquanto temas como identidade de gênero e orientação sexual são retirados dos currículos escolares? enquanto se cancela a gratuidade no transporte público para milhares de estudantes? enquanto são fechadas centenas de farmácias que disponibilizam medicamentos mais baratos aos cidadãos de baixa renda? enquanto se cogita pagar o trabalhador rural não mais com salário, mas com casa e comida? enquanto servidores de uma das principais universidades do país e funcionários do Teatro Municipal da #CidadeOlímpica continuam sem receber salários em dia? enquanto cresce o número de moradores de rua nas esquinas brasileiras? enquanto testemunhamos os mais vulneráveis pagarem a conta de uma crise sobre a qual eles não têm responsabilidade? enquanto a democracia – que não existe sem POVO, e não sem “ordem”, como afirmou certo “ministro” – escorre pelos ralos da barbárie capitalista?

Como?...

domingo, 21 de maio de 2017

Animais carnívoros

Se as últimas delações serviram para alguma coisa até agora, foi pôr fim à lenda urbana e rural de que a Friboi é do filho do Lula. Ficou claro que quem manda no país, digo, na companhia é a dupla Joesley e Wesley – assim como ficou claro que o sertanejo nutella, vulgo “universitário”, envenenou os ouvidos brasileiros de tal modo que eles passaram a acreditar em todo tipo de lorotas, até nas que não são contadas no Jornal Nacional.

Outro mito derrubado é o de que bilionários se fazem apenas com trabalho duro e despertador programado para tocar às cinco. Calma, friboizetes: ninguém duvida de que os irmãos Batista tenham seus méritos. Ninguém duvida de que tenham se empenhado em estudar o mercado e buscar oportunidades de lucro. Ninguém duvida de que trocaram inúmeras noites em suas camas quentinhas por madrugadas no frigorífico para se tornarem donos da maior produtora de carne do planeta.

Ao mesmo tempo, porém, não dá para duvidar de que os manos só acumularam tantos bilhões graças ao auxílio generoso do Estado brasileiro. O BNDES (Banco Nacional de Desenvolvimento Econômico e Social) emprestou milhões à JBS para que adquirisse concorrentes, incrementasse sua expansão internacional e se tornasse a multinacional que é hoje. Se não fosse esse Carne Sem Fronteiras, nem saberíamos quem são Joesley e Wesley – ainda estaríamos falando de Maiara e Maraísa.

O noticiário da semana contou e recontou esse case de sucesso do capitalismo de compadrio – aquele em que o êxito do negócio depende das estreitas relações entre empresários que financiam campanhas eleitorais e políticos que legislam a favor de seus patrocinadores – como se estivesse diante da última picanha do churrasco; quase como se essa fosse uma prática inventada pelos governos petistas e materializada por Temer no já célebre encontro com Joesley no Jaburu, em que o ex-deputado Eduardo Cunha aparentemente era (tem gosto pra tudo) o prato principal.

Chega a ser um deboche uma das empresas que mais se beneficiaram da intimidade com o Estado para se tornar a número um em seu ramo no Brasil (e a número dois ou três no mundo) criticar quaisquer relações nebulosas entre iniciativa privada e poder público. Quem foi além do sumário nos livros de História sabe que a Globo apoiou o regime militar a ponto de, no dia seguinte ao golpe, em 2 de abril de 1964, celebrar em seu diário de papel o restabelecimento da... democracia. A lua de mel entre Marinhos e milicos se estendeu por tanto tempo que, oito anos depois, o então presidente Emílio Garrastazu Médici afirmou que se sentia feliz ao ver no telejornal apresentado por Cid Moreira que “o mundo estava um caos, mas o Brasil estava em paz”.

É óbvio que tanto plim-plim rendeu muito dindim: que veio na forma da instalação de um sistema nacional de torres de televisão bancada pelo governo; da associação entre a emissora carioca e emissoras espalhadas pelo país, muitas delas pertencentes a políticos locais aliados dos militares; de linhas de crédito para qualquer cidadão comprar um aparelho de tevê sem juros. Até um concorrente poderoso – a TV Excelsior, cujo proprietário apoiava abertamente o presidente João Goulart, deposto pelas Forças Armadas – passou a sofrer retaliações financeiras e fechou as portas.

Era a chuva de arroz perfeita: de um lado, os generais querendo uma rede de comunicação que atingisse o país inteiro e ajudasse a livrá-lo da “ameaça comunista” (também conhecida como “todo pensamento que estimulasse desejo de justiça social”); de outro, um grupo empresarial disposto a fazer os acordos que fossem necessários para alcançar o topo da cadeia alimentar.

Qualquer semelhança com as tenebrosas alianças entre agentes públicos e privados flagradas recentemente não é mera coincidência.

Então cuidado quando ouvir por aí que aquele sujeito na capa da Época Negócios se deu bem na vida só porque se esforçou mais do que você; ou que a solução para uma crise política como a atual não passa por eleições diretas e, portanto, pela participação popular: a carne no espeto – prestes a ser devorada – pode ser a sua.